10 A 30 NOVEMBRO_2007
EDIFÍCIO BANCO DE PORTUGAL
Irene gomes
A vida que vos dei – 1987 - 2007
O meu paraíso é a criação
A infância onde encontrei a solidão
suscita-me ardentemente o traço.
A teia dos sentidos crava-se no nosso corpo,
rouba-nos a própria matéria,
e a cor lateja na terra descalça. Sob o sol e
a lua, gravo na tela a vertigem de luares pesados, pinceladas como rajadas.
Se o sonho se solta do pensamento, cria-se um
acto involuntário no quotidiano da criação e a acção prolonga-se na alquimia do
desejo.
Entro dentro do traço, sou pedras, sou mar,
sou ave riscando céus, estio na terra em que a cor e o silêncio se misturam na
regra da nostalgia.
A obra do primeiro instinto observa-me.
Absorve-me. Olha-me friamente, fixamente.
Questiono-me. Tens medo? - Sim tenho medo.
Pânico.
Criei intuitivamente. Existes.
És uma realidade pictórica, simples, frágil
na sua intensidade.
Esquivo-me por entre brisas e aragens,
perco-me.
E enquanto a harmonia do quadro se forma,
fujo para trás de um pincel, sossego-me.